Por André Machado
Brasil pode não ganhar a Copa do Mundo, mas já
tem pelo menos dois campeões no violento esporte da segurança
de bits e bytes. São os analistas de segurança
Alexandre Freire, de 26 anos, e Denis Vieira, de 25,
que trabalham na Módulo e deram um show de bola no evento
IDNET, realizado pelo Sans (System Administration, Networking
and Security), um dos mais conceituados institutos de pesquisa
e educação no campo da segurança tecnológica.
A mais recente edição aconteceu em Orlando (Flórida),
e os dois - estreantes na competição - abiscoitaram
prêmios.
Invasão de máquina levou só dois
minutos e meio
O IDNET visa a testar sistemas de segurança montando redes
de empresas fictícias que os analistas - hackers do bem
de todas as partes do mundo - tentam invadir, burlando firewalls
e outras defesas.
- Este ano, a rede estava mais complexa - conta Alexandre.
- Os organizadores montaram dois segmentos de rede representando
duas intranets fictícias de empresas. E você escolhia
ficar na rede da empresa A ou B. O objetivo era invadir o outro
lado. Para chegar lá, era preciso passar por uma rede intermediária
que eles batizaram como Attackers Net.
Eram espetados nessa rede vários sistemas de detecção
de intrusão e os expositores ficavam ali demonstrando seus
softwares de segurança. Enquanto Alexandre
se sentava e começava a mapear a rede para encontrar caminhos
de invasão, Denis nem deixou seu micro esquentar:
- Cada rede tinha seu respectivo firewall, sua rede interna e
sua DMZ (acrônimo para área "desmilitarizada",
em inglês) - diz. - A DMZ é a parte da rede em que
se colocam os servidores vistos externamente pela web, protegidos
pelo firewall. E depois vem a rede interna. O IDNET se resumia
a atacar a DMZ para chegar à rede interna da outra empresa
fictícia, na Attackers Net. Quando nos sentamos em frente
aos micros, eles estavam configurando um protocolo que dava um
problema atrás do outro. Aproveitando isso, comecei logo
a "sniffar" a rede [ isto é, monitorar os dados
trafegando por ela ] e vi uns endereços IP lá. Testei
os endereços na minha placa de rede e, uma vez que os configurei,
passei a verificar qual era o IP do firewall. Descobri e então
consegui ver que máquinas estavam na DMZ. Peguei a primeira
e entrei em dois minutos e meio. Era um servidor rodando Windows
2000.
Pouco depois, Alexandre conseguiu um feito inédito,
segundo ele, em eventos desse tipo: invadiu uma rede sem fio.
- Eu me juntei a uma analista americana e mapeamos esse access
point que estava na rede sem fio do evento. Logo avisei a um organizador:
"ei, entrei num access point aqui e estou dentro da rede
desta empresa! Posso hackear a máquina que descobri aqui
atrás?" E ele me deu o OK. Eu já tinha obtido
o login e a senha de um usuário. Era outra máquina
com Win2000. Mas, na hora que estava entrando para hackeá-la,
um expositor da empresa do access point que estava atrás
de mim, vendo tudo, saiu correndo e resetou o equipamento, desconectando
a rede wireless ( risos ).
Linux também foi hackeado durante a competição
A próxima vítima foi um sistema Mandrake Linux,
considerado um dos mais seguros do mundo. Alexandre conta
que se aproveitou, entre outras coisas, de um descuido nas senhas
do pingüim:
- Ele estava mal configurado. O POP3 do email estava aberto,
de modo que com um ataque de força bruta consegui combinar
várias palavras para entrar. E a senha do usuário
root (raiz) no POP3 era a mesma usada para dar um telnet na máquina
[ conectá-la a um servidor ].
Aí ficou fácil. No fim do evento, os dois haviam
acumulado vários cupons - os prêmios - que davam
direito ao sorteio de um gravador de DVD. Mas, como estavam com
a cota da alfândega estourada, escreveram o nome da amiga
americana nos cupons. Que se deu bem.
Fonte : O Globo Informática impresso e digital.