publications Alexandre Freire
Especialista Sênior em Segurança da Informação
Professor convidado do curso de Pós-Graduação em Gestão de Segurança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Núcleo de Computação Eletrônica)

Último Segundo / O DIA

Depois de hackeado, Orkut passa a exigir senha para várias transações

Por Marlos Mendes

A estudante de comunicação Jacqueline Brandão, 22 anos, recebeu na quarta, 29, mensagem de um estranho que dizia ter visto uma reportagem sobre a "Eu amo chocolate", comunidade criada por ela e que conta com mais de cem mil integrantes. Como não era a primeira citação ao grupo, Jacqueline não titubeou em clicar no link indicado. Ela não imaginava que estava abrindo a porta para um hacker tomar o controle de sua comunidade e lhe causar uma bela dor de cabeça.

Jacqueline foi um dos moderadores atacados por um especialista que queria mostrar uma falha de segurança no Orkut e no Internet Explorer. A tática de invasão foi a mesma com várias vítimas. Uma mensagem deixada no scrapbook (livro de visitas) sugeria que o usuário visitasse um link. Ao clicar, ele era, inadvertidamente, levado a uma outra página, fora do Orkut, onde estava encondido um código malicioso.

A ação chegou a ser noticiada pelo Dia Online como boato, por ter sido publicada inicialmente por um site de humor famoso por pegar peças na imprensa brasileira. Desta vez era verdade. Contudo, em vez de explicar claramente o procedimento que resultou na invasão, o site apenas mostrou que algumas comunidades tiveram suas imagens alateradas e receberam um texto que dava o endereço do site como o local onde obter maiores informações sobre o ataque. Assim, a denúncia acabou tomando contornos de auto-promoção.

As vítimas viram a foto de suas comunidades serem trocadas por um ícone do Firefox, browser de código aberto, e a moderação do grupo (owner) passar para o usuário Firefox Rules. "O Orkut tem um péssimo gerenciamento de cookies. Eles demoram várias horas para expirar e não são devidamente validados quando chegam ao servidor", disse o autor da invasão, que se identifica como Vinicius K-Max.

O especialista em segurança sênior da Schlumberger Information Solutions, Alexandre Freire, confirma que a invasão é viável. "A vulnerabilidade existe devido ao bug do Internet Explorer que ainda não teve correção assim como pelo tempo excessivo de duração da sessão de um cookie do Orkut". Em tempo: o bug (11950) foi identificado em 15 de dezembro.

Para permitir o ataque, o usuário tem que acessar um link externo enquanto estiver conectado ao Orkut com o Internet Explorer. A tecnologia ASP, na qual o Orkut é desenvolvido, usa arquivos chamados cookies para registrar parâmetros e preferências do usuário. Esses cookies, servem, por exemplo, para identificar um usuário durante a navegação em um site e não pedir senha a cada clique. Como os cookies têm validade longa no Orkut, o pirata consegue capturar o cookie que identifica o usuário assim que ele acessar a página de código malicioso. Feito isso, ele se faz passar pelo usuário. "Ao manter a janela do Orkut aberta, o cookie não expira a sessão e este ponto é explorado por hackers", explica Alexandre Freire. De posse dos cookies, o invasor conseguiu entrar na conta dos moderadores e transferir o controle dos grupos.

Para testar se os usuários correm de fato o risco de ter sua identidade no Orkut usada por outros, pedi ao invasor que tomasse meu perfil. Ele deixou em meu scrapbook um link e a instrução de que o acessasse com o navegador da Microsoft. Sem avisá-lo, usei o Netscape e, como era de se esperar, ele não conseguiu me atacar. Depois de visitar a mesma página com o Internet Explorer, pedi que ele tomasse meu perfil e o controle da comunidade "Por favor, roube meu profile", criada especialmente para isso. Ele conseguiu mudar meu nome para Marlos K-Max, mas não tomou o controle do grupo. Segundo ele, o Orkut começou nesta quarta-feira a pedir senha para transferir o controle de comunidades.

Não satisfeito, pedi que ele dissesse a meus amigos que eu havia decidido a deixar o Rio de Janeiro para viver de vender coco no Suriname. Em minutos, os scrapbooks de cinco amigos meus passaram a exibir minha foto e a decisão de trocar o jornalismo pelo comércio autônomo no exterior.

Segundo o especialista da Schlumberger, se o usuário não acessar um link externo enquanto estiver conectado ao Orkut, as chances desse tipo de ataque acontecer são reduzidas. "O usuário deve ter bom senso durante a navegação e não acessar sites de conteúdo duvidoso", aconselha.

Apesar da boa intenção do hacker de alertar para uma falha de segurança, os moderadores atacados ficaram obviamente irritados. "Você não precisa arrombar uma casa para mostrar que a segurança é falha. Há outras maneiras de fazer isso", diz Jacqueline.

Reprodução Oficial - Fonte : Jornal O Dia / Último Segundo (impresso e digital)

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