publications Alexandre Freire
Especialista Sênior em Segurança da Informação
Professor convidado do curso de Pós-Graduação em Gestão de Segurança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Núcleo de Computação Eletrônica)

O Globo Informática Etc..

Como funciona um cavalo-de-tróia. E como ele pode entrar na sua casa

Por André Machado

Você sabe como trabalha um cavalo-de-tróia — um daqueles softwares que vêm ocultos em anexos, ou mascarados como aplicações benignas, e são executados inadvertidamente pelos usuários incautos ou distraídos? Pois acredite, ele é de uma sofisticação assombrosa. Pude observar recentemente, pelas mãos de Alexandre Freire, consultor de segurança da informação da SchlumbergerSema, os comandos de um cavalo-de-tróia que trabalha também como um “keylogger”, capturando tudo o que é digitado pelo usuário no teclado de seu micro.

O programinha é um perigo. Primeiro, mesmo após se aboletar no micro, ele consegue sem esforço ficar fora daquela janelinha do Gerenciador de Tarefas em que vemos os softwares ativos no PC. É possível personalizá-lo, criando filtros para que só capture da digitação as palavras que interessam ao hacker (como o login que antecede a senha na hora de um internet banking, por exemplo). Outra configuração permite marcar os intervalos regulares a que a área de trabalho será fotografada, com os screenshots enviados ao invasor. Pode-se enviar ainda logs por email ou ftp a intervalos de horas ou mesmo minutos — tudo o que se escreveu, o histórico do navegador web, e assim por diante. Inclusive, a informação mandada ao hacker pode ir criptografada, para maior... “segurança”.

Mas é na hora de preparar o ataque ao micro indefeso que a engenhosidade do cavalo-de-tróia fica mais explícita. O comando de instalação remota cria um pacote completo de instalação automática do bicho — que pode ser mascarado como QUALQUER arquivo executável, inclusive um com o nome do antivírus que você usa, se ele não estiver configurado. (Isto é, se você tiver um ZoneAlarm mas achou difícil setá-lo, o cavalo-de-tróia pode aparecer como um zonealarm.exe no meio dos seus arquivos, tendo previamente apagado o original.) Uma vez confortavelmente instalado no computador, ele envia a seu criador um email confirmando a infecção. Por fim, o software pode ser programado para se autodestruir após cumprir sua função.

Segundo Alexandre, esse tipo de ameaça virtual é multiplicada, hoje em dia, pelo compartilhamento de arquivos no ambiente doméstico, em especial quando a conexão é em banda larga.

— O computador está aos poucos virando um eletrodoméstico, e algumas famílias de classe média alta já têm mais de um micro em casa — diz. — Então é comum a instalação de uma rede, para jogos em família e compartilhamento de arquivos em geral. As máquinas também são usadas para acessar arquivos no trabalho. O servidor dessa rede doméstica pode estar conectado a um Velox ou Vírtua. E aí, se as máquinas não tiverem padrões de segurança previamente setados e configurados, elas ficarão expostas na rede exatamente como um servidor não-configurado de uma empresa. Em outras palavras, viram alvos.

Busca revela arquivos pessoais, de finanças, fotos...

Segundo ele, quando se compartilha assim, sem proteção, uma pasta de arquivos, é possível entrar nela sem qualquer autenticação.

— De modo que, quando se faz no Velox uma busca por quem está online, as máquinas respondem com um ping (recurso que mostra se dado endereço IP está acessível) e basta rodar um Nmap (ferramenta que verifica o sistema operacional das máquinas) para achar o SO e as portas abertas. Trata-se das portas NetBIOS, que proporcionam compartilhamento de arquivos. E, quando você entra por elas, dá de cara com várias pastas. É impressionante o descuido das pessoas: encontram-se facilmente pastas de finanças, planilhas, informações sobre salários, contas, senhas de banco anotadas, fotos da família, da namorada...

A troca de arquivos peer-to-peer (P2P) também representa perigo. Se ao instalar um programa como o Kazaa o usuário não marcar direitinho que arquivos deseja compartilhar (o software oferece tal possibilidade de controle), ele pode indexar todo o HD, tornando o micro mais vulnerável.

— Outro lado da questão: o Velox é uma conexão PPP (ponto a ponto) sobre Ethernet, através do seu par telefônico. Não há ninguém entre você e seu prestador — diz Freire. — No entanto, em provedores como Ajato e Vírtua, a internet é toda compartilhada no mesmo cabo que sai, digamos, de um prédio. Mesmo que você tenha sua banda bem definida, outras pessoas no comdomínio, estando no mesmo barramento que você, podem rodar sniffers (programas que monitoram informações que trafegam numa rede) e depurar os pacotes de dados que estão passando de sua máquina para a internet.

Com isso, é possível capturar e pegar senhas como a do POP3 na hora que o usuário for baixar emails do trabalho, ou a do ftp na hora transferir arquivos. Por isso, Freire aconselha o uso de um webmail seguro, com SSL (Secure Socket Layer, protocolo que permite a transmissão de dados pela internet criptografando-os via chave privada).

A solução para tais ameaças? Prevenir. Manter o sistema operacional sempre atualizado e pedir ajuda para configurar corretamente o firewall pessoal, que oculta as portas compartilhadas, e o antivírus. E jamais instalar programas de procedência duvidosa.

Reprodução Oficial - Fonte : Jornal O Globo - Caderno de Informática (impresso e digital)

http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/informaticaetc/110329979.asp

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