publications Alexandre Freire
Especialista Sênior em Segurança da Informação
Professor convidado do curso de Pós-Graduação em Gestão de Segurança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Núcleo de Computação Eletrônica)

O Globo Informática Etc..

Voz sobre IPerigo

Por André Machado

Todo mundo está encantado com a voz sobre IP (VoIP) — as ligações que podem ser feitas pela internet e economizam belos cobres na conta telefônica. Uma pesquisa feita pela Nortel com 300 empresas mostrou que 85% delas estão a caminho da chamada VoIP, tendo dado o pontapé inicial na convergência de voz e dados em sua rede. Outro estudo, da Trellis, indica que, só no Brasil, há 240 mil empresas em condições de adotar a tecnologia. E o popular serviço voz sobre IP Skype já tem quase 122 milhões de downloads no mundo.

Mas... heeelloooo! Estamos conversando na selva da internet, pessoal. E ela tem mais monstros do que a floresta do seriado “Lost”. Os crackers estão lá, espreitando, como explica Alexandre Freire, especialista em segurança sênior da Schlumberger Information Solutions e professor convidado do curso de Pós-Graduação em Segurança da Informação do Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ.

— Os problemas de segurança no mundo de voz e no de dados são similares — diz. — Os usuários de VoIP continuam expostos aos riscos de enviar dados através da internet. Você tem a sensação de que sua conversa IP é confidencial, mas essa sensação é falsa. Porque a conversa está trafegando num meio público. Se não houver cuidados por parte de usuários, provedores e empresas, essas conversas podem ser interceptadas e uma escuta, estabelecida.

Pois é: pode haver grampo via internet também. E ele pode ser muito mais perigoso do que o grampo de uma linha telefônica convencional. Por quê? Porque pode ser feito de qualquer lugar do mundo.

O grampo IP é remoto e se ouve até no Japão

Segundo Valdir Bignardi, vice-presidente da Mtel Tecnologia e engenheiro especialista em telefonia e comunicação VoIP, o grampo numa linha convencional exige a presença do meliante grampeador.

— O sujeito precisa ir lá ligar os fiozinhos dentro de um ramal ou PABX ou na central telefônica. Numa rede virtual de voz, com os pacotes trafegando pela internet, qualquer hacker presente na rede pode interceptar. Um hacker no Japão pode escutar um telefonema IP no Brasil — diz. — Argumentava-se que, para fazer tal escuta, esse hacker precisaria ter um decodificador de voz, porque a voz, quando inserida num pacote IP, é codificada. Acontece que um decodificador não passa do mesmo software (ou do mesmo software + hardware) de um telefone IP! Da mesma forma, se tenho um software VoIP, desses que você instala no micro, para emular um telefone, ele já é o próprio decodificador...

Freire conta que um estudo feito por um especialista do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, analisou o Skype, programa VoIP pule de dez. Verificou que o software, quando roda numa máquina com um IP válido, público, visto por toda a internet, e sem firewall (algo muito comum), transforma essa máquina num “supernó” de rede e a usa para ajudar nas suas conexões, criando mais pontes entre elas. Isso certamente é um fator de insegurança.

— Um colega especialista em segurança me ligou dizendo que a máquina da irmã dele estava estabelecendo contato com PCs estranhos, em Taiwan e outros locais. Ele fez todos os testes de segurança e me garantiu que não era vírus. Desconfiou, ao ler o estudo, que o problema surgia porque a máquina virava um supernó ao se conectar via Skype — conta Freire.

Estudo diz que não há prova de que Skype criptografa

O Skype diz que seu tráfego é criptografado, mas, segundo Freire, o estudo afirma não ter encontrado indícios de mecanismos de criptografia durante a análise de tráfego feita. Ele diz que, se o software for realmente criptografado, usa uma solução totalmente fechada para transmitir voz e dados.

— O estudo não identificou nada que se parecesse com troca de chaves, algoritmos, protocolos, enfim, nada que sugerisse criptografia.

Outro problema é que o Skype também tem funções de transferência de arquivos (fotos, textos, músicas etc) num esquema P2P (peer-to-peer, isto é, numa conexão direta com outro computador), tanto que hoje também vem distribuído com o Kazaa. Usar essas funções P2P junto com VoIP é expor o micro às velhas ameaças conhecidas: vírus, cavalos-de-tróia, e assim por diante. Por isso, o PC que usa VoIP tem que ter antivírus, firewall, anti-spyware e o escambau. Tudo atualizado.

Freire dá mais duas dicas preciosas para a segurança:

— Há um cavalo-de-tróia que, se executado pelo usuário, manda ligar a webcam do MSN sem que ele perceba. Nada impede o surgimento de outro que ligue o microfone do PC sem que você perceba, quando não estiver usando o Skype, mas conversando com alguém numa sala. Por isso, mantenha o microfone desconectado e só o use ao fazer o telefonema IP — diz. — E, se estiver teclando num chat, veja se pode desabilitar o histórico do seu papo, que no Skype é gravado por default. No MSN, você precisa habilitar essa gravação, se quiser.

Valdir Bignardi, da Mtel, diz que o usuário deve estar bem atento ao seu provedor antes de usar VoIP. Ele explica que, numa banda larga, da casa do usuário até o elemento concentrador de ADSL (a tecnologia que o Velox usa, por exemplo) a conexão está ponto a ponto. De modo que não há, nesse trecho, como fazer escuta, a não ser que se mexa no fio telefônico (como no caso de ligações convencionais, citado anteriormente). Já na saída do concentrador, a sessão de comunicação vira IP, o protocolo da internet. Na saída dessa rede interna da operadora para a internet (o meio não controlado) também é essencial ter um firewall capaz de inspeção profunda (isto é, capaz de entender a “linguagem” falada nos pacotes IP). Senão a conversa pode ser ouvida.

— Então, ao assinar um serviço VoIP de um provedor, é preciso saber se ele tem, na conexão internet, um mecanismo de inspeção profunda de pacotes. Assim, nos primeiros bits trafegados, pode-se fazer a desconexão caso seja detectado algum problema — diz Bignardi.

Boa notícia é que crackers ainda engatinham na área

E, além dos vírus e worms que conhecemos, já existem ameaças mais específicas para os padrões VoIP? Segundo Fernando Nery, presidente da Módulo Security, a boa notícia é que os crackers ainda não estão familiarizados com os protocolos específicos de atuação da voz sobre IP. Por outro lado, essa fase já aconteceu com o mundo wireless, que hoje está mais visado. Uma vez descoberta uma vulnerabilidade, a turma do mal não perderá tempo.

— Pelas características do áudio, novas ameaças surgirão — sentencia Marcos Sêmola, diretor da divisão de consultoria de segurança da Atos Origin para a América do Sul. — Veja, com pacotes de dados rodando numa rede IP, não há nenhum problema se, mesmo depois de um ataque à rede, os pacotes chegarem ao destino numa ordem diferente da original, ou num ritmo diferenciado. Já no caso da voz, se isso acontece você tem ruídos, perda de cadência da voz, delays. Então, na verdade, pode-se comprometer a integridade da voz através dos ataques aos mesmos protocolos aos quais estamos acostumados.

Enquanto a solução para o usuário são os softwares de segurança (ou sistemas operacionais mais estáveis, como um Slackware bem guaribado) e a eterna vigilância, as empresas podem trabalhar com soluções criativas para se prevenir contra ataques a VoIP. Uma delas é, num gerenciador de chamadas, associar o número IP do aparelho VoIP ao “MAC address”, o endereço físico de sua placa de rede. Assim, diz Sêmola, fica bem difícil ter um telefone IP falso no meio da rede.

IPs privativos podem ajudar na proteção dos dados

É possível usar, também, criptografia, fechando um túnel VPN entre o telefone IP e o gerenciador de chamadas (não dá para obrigar a outra ponta da ligação a fazer isto, porém). O ideal é só utilizar aparelhos IP que usem V-LANS (redes virtuais) e IPs privativos, só vistos na rede da empresa. E a rede VoIP deve ter arquitetura própria, separada, para não afetar a de dados.

A inspeção tem que ser profunda

Como um cracker pode atacar pacotes VoIP passeando pela rede? Segundo Valdir Bignardi, da Mtel, se o pacote de voz sobre IP passear de forma indistinta pela rede, sem proteção, os crackers podem botar nele códigos maliciosos como botam numa página HTML.

— E como eles põem vírus na página HTML? Inserem dentro do campo de dados um worm que, ao chegar ao PC do usuário, executa funções específicas. Aliás, a coisa toda pode partir daí. Uma das funções do worm é publicar seu endereço IP para capturar o tráfego que passa por lá. Depois, se os crackers pegarem um fluxo de comunicação de voz e inserirem nele outro worm, conseguem capturar o pacote IP e fazem um desvio de tráfego — explica.

O ideal é que o firewall, especialmente num ambiente corporativo, evite isso, influindo nos campos de dados. Mas, se não reconhecer a linguagem se fala neles, perde a capacidade de detectar o worm durante a sessão de comunicação de voz.

— É como entrar numa sala cheia de japoneses. Você entra? Entra. Mas, se não falar japonês, não entende nada. Se o firewall não estiver preparado, acontece a mesma coisa — diz Valdir.

É aí que entra a tal inspeção profunda de pacotes. Ela deixa que você entre na sala e, junto com sistemas de detecção de intrusão, permite que entenda o que se fala ali. Em outras palavras, o firewall, mais um sistema de detecção de intrusão bem configuradinho, entra no pacote IP e identifica o tráfego de voz. Como esse tráfego deveria estar montado? Com um bit de controle, mais esse campo, esse outro campo e tais e tais dados. Mas... hum... está diferente. Ahá! Então tem uma intrusão aqui.

Em suma: sem inspeção profunda, o perigo é profundo...

Alexandre Freire colabora periodicamente com a midia digital e impressa em artigos em relação aos mais diferentes tópicos de Segurança da Informação. Por diversas oportunidades as matérias receberam destaque como matérias de capa de diversos jornais e sites especializados em tecnologia.

Reprodução Oficial - Fonte : Jornal O Globo - Caderno de Informática (impresso e digital)

http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/informaticaetc/168740013.asp

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