publications Alexandre Freire
Especialista Sênior em Segurança da Informação
Professor convidado do curso de Pós-Graduação em Gestão de Segurança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Núcleo de Computação Eletrônica)

O Globo Economia

Tem Internet na Linha

Por Maria Fernanda Delmas e Mirelle de França

É um exemplo clássico da força do consumidor: a história começou com um ou outro falando sobre o Skype — uma empresa que usava uma tecnologia nova que permitia fazer ligações DDD e DDI com uma economia brutal — depois começaram a pipocar outras empresas especializadas em telefonia pela internet e, no fim, até as grandes telefônicas se renderam, anunciando que não vão ficar fora desse mercado. Os cálculos sobre a economia que a tecnologia de voz sobre protocolo de internet (VoIP, na sigla em inglês) pode gerar para o usuário em DDD e DDI vão de 40% a 90%. A consultoria especializada em tecnologia IDC Brasil projeta que em 2009 as concessionárias de telefonia fixa podem perder até 29% da receita de voz de consumidores residenciais e 36,3% dos corporativos para a VoIP.

As concessionárias de telefonia fixa têm mesmo de se mexer. Imaginando-se uma perda média de 30% sobre a última receita disponível, a de 2004, essa perda poderia variar de R$ 12,5 bilhões a R$ 15,5 bilhões. A IDC calculou que a receita de voz das concessionárias foi de cerca de R$ 42 bilhões no ano passado. Mas um estudo de outra consultoria, a Accenture, mostra que a receita bruta total de Telemar, Telefônica, Brasil Telecom e Embratel foi de R$ 60,5 bilhões, e 86%, ou R$ 52 bilhões, seriam vinculados à voz. Com os serviços que já estão alardeando, elas mesmas podem abocanhar parte desse mercado.


Setor já reúne mais de cem empresas

Petronio Nogueira, sócio-diretor da consultoria Accenture, ressalta que globalmente a receita de voz tradicional está estagnada por vários fatores, como e-mails e programas de troca instantânea de mensagens, além do VoIP e do celular. O estudo do IDC mostrou que 98% dos usuários domésticos de VoIP não pretendiam abandonar seus telefones fixos ou celulares. Mas aos poucos eles vão substituindo serviços.

O tradutor inglês Stephen Dibley mantém duas linhas convencionais em casa e usa a telefonia fixa para fazer ligações locais. Mas para falar toda semana com os pais, que moram na Inglaterra, adotou o UOL Fone:
— Hoje pago 20% do valor da conta de telefone antiga.

Especialistas calculam que há mais de cem empresas oferecendo VoIP, entre as oficiais, que têm licença do governo, e as não oficiais. A concorrência só cresce e o ambiente é fértil. As empresas autorizadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a prestar Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) são cerca de 300 e os usuários de banda larga já beiram os 3 milhões no país. Um modem para banda larga, que chegou a custar R$ 1.500, hoje é vendido por um décimo desse valor. Segundo a IDC, entre usuários de internet por banda larga e acesso discado, no meio do ano já havia 2 milhões de clientes de softwares gratuitos de VoIP, número que pode dobrar até 2009.
As operadoras de telefonia reclamam regras mais rígidas. Luiz Cuza, presidente da TelComp — associação que reúne operadoras — diz que essas licenças de SMC foram dadas em 2001, só que até hoje não há regras. Mas a Anatel afirma que a VoIP é tecnologia nova, não um novo serviço.

— A tecnologia atropela a regulamentação — reconhece Ronaldo Iabrudi, presidente da Telemar, que oferecerá VoIP este mês ou em janeiro. Segundo ele, percebe-se que a regulamentação vai demorar e que há problemas de fraudes, então é preciso entrar no jogo.

Das operadoras de telefonia fixa, quem saiu na frente no segmento doméstico foi a GVT, empresa-espelho da Brasil Telecom (BrT). Este mês ela lançou a Vono, que nasce como subsidiária para VoIP. A BrT vai lançar o Voip Fone e deve oferecer ligações com tarifas até 40% mais baratas que as convencionais. A Embratel deve lançar, em parceria com a Net, um novo serviço de voz, chamado de triple play (inclui TV, banda larga e telefonia). Garante que os preços serão mais competitivos que os das demais operadoras fixas. A empresa está acompanhando o desenvolvimento de telefonia VoIP, mas ainda não tomou uma decisão. E a Telefônica pretende lançar no próximo semestre o VoIP para consumidor residencial.

Tecnologia Apresenta Riscos
Por André Machado

Voz sobre IP é a queridinha tecnológica do momento, mas os especialistas em segurança já alertam: falar através do protocolo de internet expõe o usuário às mesmas mazelas a que a grande rede está sujeita. Ou seja, vírus (que travam a máquina), vermes (se auto-reproduzem e se disseminam pelo catálogo de endereços do usuário) e similares.

Alexandre Freire, especialista de infra-estrutura e segurança da divisão Enterprise Partners Group da Microsoft, avisa que a sensação de confiança ao usar um Skype da vida é enganosa, porque a conversa entre os interlocutores transita por um meio público. Ele cita estudo do Massachusetts Institute of Technology mostrando que este tipo de software, quando roda numa máquina com IP (protocolo de internet) válido, público, visto por toda a internet, e sem firewall (barreira contra vírus — algo muito comum, especialmente entre usuários finais), transforma essa máquina num “supernó” de rede e a usa para ajudar nas suas próprias conexões, criando mais pontes entre elas. A privacidade do usuário, com tal processo, pode ficar comprometida.

Outra questão é o grampo telefônico, que ficaria mais fácil com o uso da voz sobre IP. Segundo Valdir Bignardi, vice-presidente da Mtel Tecnologia e engenheiro especialista em telefonia e comunicação VoIP, numa linha telefônica convencional o grampeador precisa ligar fios dentro de um ramal ou PABX ou na central telefônica. Numa rede virtual de voz, com os pacotes trafegando pela internet, qualquer hacker na rede pode interceptá-los.

— Com isso, um hacker em outro país poderia escutar um telefonema IP no Brasil — diz Bignardi.

Alexandre Freire colabora periodicamente com a midia digital e impressa em artigos em relação aos mais diferentes tópicos de Segurança da Informação. Por diversas oportunidades as matérias receberam destaque como matérias de capa de diversos jornais e sites especializados em tecnologia.

Reprodução Oficial - Fonte : Jornal O Globo - Caderno de Economia (impresso e digital)

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