O Globo Economia
Tem Internet na Linha

Por Maria Fernanda Delmas e Mirelle de França
É um exemplo clássico da força do consumidor:
a história começou com um ou outro falando sobre
o Skype — uma empresa que usava uma tecnologia nova que
permitia fazer ligações DDD e DDI com uma economia
brutal — depois começaram a pipocar outras empresas
especializadas em telefonia pela internet e, no fim, até
as grandes telefônicas se renderam, anunciando que não
vão ficar fora desse mercado. Os cálculos sobre
a economia que a tecnologia de voz sobre protocolo de internet
(VoIP, na sigla em inglês) pode gerar para o usuário
em DDD e DDI vão de 40% a 90%. A consultoria especializada
em tecnologia IDC Brasil projeta que em 2009 as concessionárias
de telefonia fixa podem perder até 29% da receita de
voz de consumidores residenciais e 36,3% dos corporativos para
a VoIP.
As concessionárias de telefonia fixa têm mesmo
de se mexer. Imaginando-se uma perda média de 30% sobre
a última receita disponível, a de 2004, essa perda
poderia variar de R$ 12,5 bilhões a R$ 15,5 bilhões.
A IDC calculou que a receita de voz das concessionárias
foi de cerca de R$ 42 bilhões no ano passado. Mas um
estudo de outra consultoria, a Accenture, mostra que a receita
bruta total de Telemar, Telefônica, Brasil Telecom e Embratel
foi de R$ 60,5 bilhões, e 86%, ou R$ 52 bilhões,
seriam vinculados à voz. Com os serviços que já
estão alardeando, elas mesmas podem abocanhar parte desse
mercado.
Setor já reúne mais de cem empresas
Petronio Nogueira, sócio-diretor da consultoria Accenture,
ressalta que globalmente a receita de voz tradicional está
estagnada por vários fatores, como e-mails e programas
de troca instantânea de mensagens, além do VoIP
e do celular. O estudo do IDC mostrou que 98% dos usuários
domésticos de VoIP não pretendiam abandonar seus
telefones fixos ou celulares. Mas aos poucos eles vão
substituindo serviços.
O tradutor inglês Stephen Dibley mantém duas linhas
convencionais em casa e usa a telefonia fixa para fazer ligações
locais. Mas para falar toda semana com os pais, que moram na
Inglaterra, adotou o UOL Fone:
— Hoje pago 20% do valor da conta de telefone antiga.
Especialistas calculam que há mais de cem empresas oferecendo
VoIP, entre as oficiais, que têm licença do governo,
e as não oficiais. A concorrência só cresce
e o ambiente é fértil. As empresas autorizadas
pela Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) a prestar Serviço de Comunicação
Multimídia (SCM) são cerca de 300 e os usuários
de banda larga já beiram os 3 milhões no país.
Um modem para banda larga, que chegou a custar R$ 1.500, hoje
é vendido por um décimo desse valor. Segundo a
IDC, entre usuários de internet por banda larga e acesso
discado, no meio do ano já havia 2 milhões de
clientes de softwares gratuitos de VoIP, número que pode
dobrar até 2009.
As operadoras de telefonia reclamam regras mais rígidas.
Luiz Cuza, presidente da TelComp — associação
que reúne operadoras — diz que essas licenças
de SMC foram dadas em 2001, só que até hoje não
há regras. Mas a Anatel afirma que a VoIP é tecnologia
nova, não um novo serviço.
— A tecnologia atropela a regulamentação
— reconhece Ronaldo Iabrudi, presidente da Telemar, que
oferecerá VoIP este mês ou em janeiro. Segundo
ele, percebe-se que a regulamentação vai demorar
e que há problemas de fraudes, então é
preciso entrar no jogo.
Das operadoras de telefonia fixa, quem saiu na frente no segmento
doméstico foi a GVT, empresa-espelho da Brasil Telecom
(BrT). Este mês ela lançou a Vono, que nasce como
subsidiária para VoIP. A BrT vai lançar o Voip
Fone e deve oferecer ligações com tarifas até
40% mais baratas que as convencionais. A Embratel deve lançar,
em parceria com a Net, um novo serviço de voz, chamado
de triple play (inclui TV, banda larga e telefonia). Garante
que os preços serão mais competitivos que os das
demais operadoras fixas. A empresa está acompanhando
o desenvolvimento de telefonia VoIP, mas ainda não tomou
uma decisão. E a Telefônica pretende lançar
no próximo semestre o VoIP para consumidor residencial.
Tecnologia Apresenta Riscos
Por André Machado
Voz sobre IP é a queridinha tecnológica do momento,
mas os especialistas em segurança já alertam:
falar através do protocolo de internet expõe o
usuário às mesmas mazelas a que a grande rede
está sujeita. Ou seja, vírus (que travam a máquina),
vermes (se auto-reproduzem e se disseminam pelo catálogo
de endereços do usuário) e similares.
Alexandre Freire, especialista de infra-estrutura e
segurança da divisão Enterprise Partners Group
da Microsoft, avisa que a sensação de
confiança ao usar um Skype da vida é enganosa,
porque a conversa entre os interlocutores transita por um meio
público. Ele cita estudo do Massachusetts Institute of
Technology mostrando que este tipo de software, quando roda
numa máquina com IP (protocolo de internet) válido,
público, visto por toda a internet, e sem firewall (barreira
contra vírus — algo muito comum, especialmente
entre usuários finais), transforma essa máquina
num “supernó” de rede e a usa para ajudar
nas suas próprias conexões, criando mais pontes
entre elas. A privacidade do usuário, com tal processo,
pode ficar comprometida.
Outra questão é o grampo telefônico, que
ficaria mais fácil com o uso da voz sobre IP. Segundo
Valdir Bignardi, vice-presidente da Mtel Tecnologia e engenheiro
especialista em telefonia e comunicação VoIP,
numa linha telefônica convencional o grampeador precisa
ligar fios dentro de um ramal ou PABX ou na central telefônica.
Numa rede virtual de voz, com os pacotes trafegando pela internet,
qualquer hacker na rede pode interceptá-los.
— Com isso, um hacker em outro país poderia escutar
um telefonema IP no Brasil — diz Bignardi.
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Alexandre
Freire colabora periodicamente com a midia digital e
impressa em artigos em relação aos mais
diferentes tópicos de Segurança da Informação.
Por diversas oportunidades as matérias receberam
destaque como matérias de capa de diversos jornais
e sites especializados em tecnologia.
Reprodução Oficial - Fonte :
Jornal O Globo - Caderno de Economia (impresso e
digital) |
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